Curitiba, nos passos de Jaime Lerner

Escultura de Jaime Lerner, obra de Elvo Benito Damo, nova atração do calçadão da rua das Flores, em Curitiba/foto: Isabella Mayer/Secom

No mundo inteiro, cidades reverenciam seus personagens com roteiros que resgatam momentos ou feitos importantes de suas vidas e que acabam se transformando em itinerários turísticos e afetivos de quem as visita e mesmo de seus habitantes.

Para citar apenas alguns, no Brasil há os roteiros que lembram os caminhos de Carlos Drummond de Andrade em sua Itabira (MG); de Jorge Amado, em Salvador; de Mário Quintana, em Porto Alegre; de Juscelino Kubistchek, na mineira Diamantina. Além mar, Paris reverencia ícones como Ernest Hemingway (também muito lembrado em Cuba), Scott Fitzgerald e Salvador Dalí; Londres tem tour dedicados a Sherlock Holmes, criação de Arthur Conan Doyle, e ao escritor Charles Dickens; em Praga, o personagem é Franz Kafka. Quando foi eleito, o Papa Francisco mereceu um tour pela sua Buenos Aires, de onde saiu para abençoar o mundo das janelas voltadas para a praça de São Pedro, no Vaticano.

Na inauguração da escultura do arquiteto, urbanista, prefeito e governador Jaime Lerner, na manhã da terça-feira 23, no calçadão da rua 15 de Novembro, no Centro de Curitiba, o prefeito Eduardo Pimentel, qualificou o local como uma nova atração turística da cidade, agregando um novo fator de interesse ao já histórico calçadão que ali está há mais de meio século, obra do homenageado e o primeiro do país.

Neste 24 de março, que pode ser considerado o marco zero da grande transformação urbana, cultural, econômica e ambiental de Curitiba, e por quê não, turística? – é a data da primeira posse de Lerner como prefeito, no já distante 1971 -, permito-me elencar alguns lugares que poderiam compor um itinerário refazendo os passos desse curitibano que colocou sua cidade natal no mapa-mundi.

A rua Barão do Rio Branco, por exemplo, seria o início da caminhada, via que recebeu uma espécie de memorial descritivo de Lerner ao ser homenageado na Câmara Municipal com o título de Vulto Emérito de Curitiba. Ali, ficava – e ainda está, transformada em restaurante, no número 593 – a casa de sua família.

Foi uma verdadeira declaração de amor: falou da estação ferroviária, do relógio da estação que marcou horas importantes de sua vida, da praça em frente, do Hotel Continental, de uma banca de revistas “que despertaram em mim a magia do gibi”, da estação de bondes, “nome mais simpático que um terminal de transporte”, do Bar Palácio, do terreno onde sempre era armado o circo do palhaço Chic-Chic, das famosas rádios PRB-2 e Guairacá, com seus programas de auditório, dos edifícios públicos e das antigas casas de comércio, entre as quais a Casa Felix, de seu pai.

“Seria natural – disse ele ao discursar – que mais tarde eu viesse a dar importância a uma rua, A qualquer rua. (…) Só se atravessa uma rua quando se vive intensamente essa rua”.

E o roteiro poderia incluir também exemplares como a sede do Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), no Juvevê, de onde comandou parte do processo de transformação da cidade; pelo gabinete do Meio (referente à secretaria do Meio ambiente, no parque Barigui), onde fazia seu pouso de trabalho todas as manhãs, que repetiu, já como governador, no chamado Chapéu Pensador, no bosque da Copel. E seguir por bares e restaurantes dos quais era frequentador assíduo. E percorrer as vias do Setor Histórico revalorizado.

A casa onde morou com dona Fani e viu nascer as filhas Andréa e Ilana, na rua Bom Jesus – hoje sede do Instituto Jaime Lerner – já recebe periodicamente visitas guiadas. E há o parque Jaime Lerner, com o complexo de Pedreira Paulo Leminski e da Ópera de Arame (obras suas), hoje com a rua da Música, ponto de gastronomia e atrações culturais.

Mas, na verdade, o itinerário seria muito maior, porque obrigatório seria incluir os grandes parques – Barigui, Barreirinha, São Lourenço, Passaúna, Jardim Botânico, Rua 24 Horas, Teatro do Paiol, Bosque do Papa, Universidade Livre do Meio Ambiente, Bosque Gutierrez/Memorial Chico Mendes, Museu Oscar Niemeyer e tantos outros locais. Uma maratona cultural e afetiva. Um legado de peso.

Sobre todos esses locais, disse Lerner um dia: “…cada rua é um marco importante, cada praça, cada parque, cada recanto é a associação com pessoas que tão profundamente marcaram a minha vida.

“Nasci nesta cidade,

Aqui joguei meus dias de criança,

Aqui, brinquei, corri, voei,

Fiz meu curso de fantasia,

fiz meu curso de realidade…”.

Boa viagem aos que pretendem trilhar esses caminhos. Podem estar certos que valerá a pena.

 

 

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