
Primeiro de abril de 1954, uma quinta-feira: há um movimento incomum no Paço da Liberdade, sede da Prefeitura de Curitiba, na praça Generoso Marques. Um entra-e-sai de políticos, jornalistas e curiosos. A data é propícia a brincadeiras e trotes, mas, ali, no prédio construído pelo prefeito Cândido de Abreu e inaugurado em 1916, a coisa é séria.
É que, naquele dia, Curitiba amanheceu com dois prefeitos. Um, nomeado pelo governador Bento Munhoz da Rocha Neto – Ernani Santiago de Oliveira, já despachando no primeiro andar, local do gabinete do chefe do Executivo –; outro designado pelo presidente da Câmara Roberto Barrozo Filho – Augusto Toaldo Túlio, que era vice-presidente do legislativo, comandando a cidade do segundo andar, onde até então funcionava a Câmara.
A crise começou com a renúncia do prefeito José Luiz Guerra Rego, que estava no cargo desde maio de 1953, nomeado depois do falecimento do antecessor, Erasto Gaertner, alegando motivos particulares, mas, na verdade, para se desincompatibilizar das funções e concorrer às eleições para prefeito, em 3 de outubro de 1954 – a que elegeu Ney Braga.
Para substitui-lo, o governador Munhoz da Rocha designou o advogado Ernani Santiago de Oliveira, pessoa de grande prestígio na cidade e que já havia sido diretor geral de Educação, cargo hoje equivalente a secretário de Estado.
O presidente da Câmara, Roberto Barrozo Filho, alegava que, como a Constituição de 1946, pós-redemocratização, havia estabelecido eleições diretas para prefeito, a nomeação do governador seria inconstitucional. Seria ele, Barrozo Filho, o primeiro na linha de sucessão de Guerra Rego, pelo menos interinamente, até a eleição.
Ocorre que o pai de Barrozo Filho – o jornalista Roberto Barrozo – também pretendia concorrer à Prefeitura e a presença de seu filho no posto o tornaria inelegível. Numa manobra matreira, Barrozo Filho determinou ao seu vice, Augusto Toaldo Túlio que tomasse conta do Poder municipal.
Barrozo Filho também argumentava que havia um compromisso de Munhoz da Rocha de não mais nomear prefeito até a realização das eleições.
Depois de longas horas de discussões, um vereador – Mário Afonso Alves de Camargo – propôs que a Câmara apreciasse a questão, prevalecendo a decisão do governador por 10 votos a 5.
O caso parecia solucionado, Santiago de Oliveira foi empossado, mas, na hora de assinar o termo, o livro havia sumido, dizem que por obra do presidente da Câmara. O recurso foi redigir o termo de posse em papel timbrado e autenticá-lo em cartório. (Seu mandato foi até 14 de novembro, quando passou o bastão a Ney Braga). Mas o bate-boca prosseguiu nos jornais por vários dias.

Em julho de 1981, o sr. Roberto Barrozo Filho, em entrevista (gravada) a este repórter, na sede de seu cartório, na galeria Ritz, deu sua versão do fato: argumentou que a Assembleia Legislativa havia aprovado uma emenda supressiva à Constituição do Estado, acabando com a atribuição do governador de nomear prefeitos. E com a vacância do cargo, pela renúncia de Guerra Rego, “o governador não tinha donde buscar atribuição de poderes para nomear o novo prefeito (…) pelo menos não nomear sem ouvir a Câmara”.
Sobre sua manobra de indicar seu vice ao cargo, para não atrapalhar a candidatura do pai, Barrozo Filho disse que na época da vacância do cargo o pai já era registrado como candidato a prefeito no Tribunal Regional Eleitoral. “Então, eu entendi, me parece que o entendimento é lógico, é jurídico, que eu é que estava impedido de assumir a Prefeitura, porque se ele estava com direito adquirido de disputar, e se havia alguma incompatibilidade, essa passava a ser minha. Seria dele se não fosse registrado”.
E complementou: “Com a vacância do cargo de prefeito e em razão de meu impedimento, resolvi dar posse ao 1º vice-presidente da Câmara, que era o vereador Augusto Toaldo Túlio. Alguns que se opuseram à minha conduta, alegaram: ‘Mas então você teria que se afastar da presidência da Câmara’. Não, respondi, eu não estava impedido de exercer a presidência da Câmara. Era um cargo legislativo. Existia, sim para assumir a Prefeitura. Então eu continuaria exercendo a presidência da Câmara e o 1º vice-presidente assumiria a Prefeitura”.
“Quando cheguei ao gabinete do presidente da Câmara, encontrei o Ernani Santiago de Oliveira dizendo que havia ido convocado para ser o prefeito de Curitiba. Eu já sabia que ele havia sido nomeado e eu disse: “Ernani, apesar de você ser meu amigo eu não te dou posse. Estou impedido e, sendo eu o presidente da Câmara e prometido zelar pelo cumprimento da Constituição e das leis, eu não posso empossar um prefeito cuja nomeação eu não acho legal. Então, ele saiu do meu gabinete sabendo que eu não o empossaria”.
Barrozo disse que Santiago de Oliveira conseguiu reunir assinaturas suficientes dos vereadores para assumir, mas me neguei a receber esse documento, porque achava que o requerimento tinha fundamento inconstitucional. Em sequência, passou a presidência ao segundo-vice, Lauro Esmanhoto, e ao primeiro secretário, Portela Natel, que também se recusaram. Então assumiu a presidência da Câmara o vereador Menezes Caldas, que empossou o prefeito nomeado pelo governador.
Nessa altura, Santiago e Túlio estavam e meio ao tumulto no gabinete do prefeito. Conta Barrozo Filho: “Toaldo Túlio não arredava o pé do gabinete do prefeito. Eu mesmo o aconselhei a não sair dali. Que até levasse para ali a sua cama. O gabinete e a cadeira do prefeito constituíam um símbolo do exercício do cargo”.
Ainda de acordo com a versão de Barrozo, o governador envia, então, à Prefeitura, o delegado de Ordem Social, Peregrino Dias da Rosa Filho para convencer Túlio a ceder. “No ardor da discussão, Toaldo Túlio levanta-se para discutir e o dr. Ernani Santiago de Oliveira senta-se na cadeira deixada vaga, aperta a campainha e chama os diretores de departamentos e diz que ‘acabo de assumir o exercício do cargo de prefeito’”.
“Logo em seguida – continua – ofereci o meu gabinete de presidente da Câmara para ele (Túlio), que passou a despachar no meu gabinete e eu em outra sala da Câmara. Mas, evidentemente, instado pelo Ernani para restabelecer a harmonia do município, disse ao Túlio que renunciasse”.
Nas eleições de 3 de outubro de 1954, concorreram oito candidatos. Ney Braga foi eleito prefeito com 18.327 votos (29,96%). Roberto Barrozo, o pai, ficou em sétimo lugar; recebeu 2,14% dos votos: 1.307.
